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Todos Juntos: Uma Ode Global à Alegria

Arthur Nestrovski

A “Ode à Alegria” de Schiller foi escrita em 1785 e revista pelo poeta em 1808. Incorporada parcialmente à Nona Sinfonia de Beethoven, em 1824, viria a se tornar uma das mais, se não a mais famosa obra musicada por qualquer compositor na história do Ocidente. Paradoxalmente, permanece pouco conhecida, de fato, pelos milhões ou bilhões de ouvintes da Nona que não entendem o idioma alemão. Seu sentido, porém, é da essência da Sinfonia. Juntos, em poesia e música, Beethoven e Schiller levam ao limite os ideais iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade, que inspiram o mundo democrático moderno.

Não era esse o mundo em que eles viviam, tampouco o mundo do Brasil na virada do século XVIII e ao longo de quase todo o século XIX (lembrando que o país foi a última nação das Américas a abolir a escravidão, em 1888). Para cá, mais do que para qualquer outra parte do continente americano, veio o maior número de africanos escravizados, durante mais de trezentos anos. Confrontado com as realidades da Bahia, principal porto de entrada do tráfico de escravos, e movido por aqueles mesmos ideais do Esclarecimento, Castro Alves escreveu “O Navio Negreiro” (1869), até hoje dos mais impressionantes retratos da barbárie – a barbárie como escancarado, mas inconfessável segredo da civilização. Essa chaga está na raiz da sociedade brasileira, e não é preciso muito esforço para perceber seus efeitos, mais ou menos diretos, a nosso redor.

“Depois de 130 anos da extinção da escravidão, existem [...] permanências fortes e teimosas na sociedade [...]. O racismo continua estrutural no país, e continua inscrito no presente, de forma que não é possível apenas culpar a história ou o passado. A violência e a desigualdade têm na raça um fator a mais, com as pesquisas mais contemporâneas mostrando como negros morrem antes, estudam menos, têm menos acesso ao mercado de trabalho [...], sofrem com mais atos de sexismo, possuem acesso mais restrito a sistemas de moradia e acompanhamento médico. Por fim, o trabalho escravo, mesmo que informal, está longe de se encontrar extinto no país”, escrevem Flávio dos Santos Gomes e Lilia Moritz Schwarcz, na Introdução ao Dicionário da Escravidão e Liberdade.

Com tudo isso em mente – correspondências e disparidades que caracterizam a cultura brasileira em relação ao legado europeu –, foram imaginadas respostas ao desafio lançado pelo Carnegie Hall, no projeto Todos Juntos: Uma Ode Global à Alegria: partindo de uma aposta na força da alegria, situar a Nona em novo contexto, dialogando com nosso próprio tempo e lugar. O projeto terá sua estreia com a Osesp, em São Paulo, dando início também, em dezembro, às comemorações pelos 250 anos de aniversário de Beethoven, em 2020. Depois, as “novas” Nonas serão apresentadas por oito outras orquestras, com solistas e coros, ao redor do mundo: National Youth Orchestra of Great Britain (Londres), Baltimore Symphony, New Zealand Symphony, Sydney Symphony, ORF (Viena), KwaZulu-Natal Philharmonic e Johannesburg Philharmonic (África do Sul), e uma orquestra jovem reunida pelo próprio Carnegie Hall, em Nova York – todas regidas por Marin Alsop. Cada uma criará sua rede de referências musicais, entremeadas com a obra de Beethoven; cada uma produzirá, também, uma tradução da “Ode”, a ser cantada na língua de cada país.

No nosso caso, a Nona chega na moldura de um anônimo canto de capoeira da Bahia, conhecido como “Navio Negreiro”, tramando conversas com um trecho de uma abertura de Paulo Costa Lima, Cabinda – Nós Somos Pretos (encomenda da Osesp, em 2015). Conversa também com um adágio para cordas encomendado a Clarice Assad, que por sua vez alude ao tema da canção tropicalista “Alegria, Alegria” (1967), de Caetano Veloso – antológica canção de reação ao arbítrio, em todas as suas formas.

A mesma canção também é motivo de uma breve alusão na “Ode à Alegria” em português, em minha tradução, trabalho feito na esteira de versões para canções de Schubert e Schumann. Algumas vêm sendo gravadas ao longo dos últimos anos; entre elas, a “Serenata”, de Schubert/Rellstab, e “Pra Que Chorar”, de Schumann/Heine. Uma coisa é traduzir uma canção; outra, muito diferente, é traduzir a “Ode” de Schiller. Diferenças de registro e de forma à parte, o intuito, afinal, é o mesmo: tornar a poesia cantada compreensível, de modo natural, para nós, agora. Muitos ouvintes terão chance de entender, talvez pela primeira vez, e no momento real da audição, o que está sendo dito nessa Sinfonia.

Ao longo do ano, os quase trinta mil alunos e professores que frequentam ensaios da Osesp e concertos didáticos na Sala terão aulas sobre a Nona, a “Ode” e a história da escravidão no Brasil. A presença dos cantores do Coro Acadêmico da Osesp e do Coral Jovem do Estado, lado a lado com o Coro da Osesp, nos concertos de dezembro, servirá de emblema do amplo trabalho de educação associado ao projeto e que é tão importante quanto a música ela mesma.

Tudo somado, essa Nona será um retrato de muito do que mais nos move, como artistas, gestores, cidadãos; e não poderia haver obra mais adequada para a conclusão da Temporada e dos oito anos de Marin Alsop como Diretora Musical da Osesp. Ao mesmo tempo que a música de um dos maiores compositores da tradição ocidental será tocada e cantada com exigência artística máxima, também deixará espaço para diálogos com a cultura brasileira em geral e, em particular, com a composição dos nossos dias; o monumento de Beethoven e Schiller, bem ao espírito deles mesmos, ganhará vida nova por força do que nos fará escutar e pensar; associados a orquestras de várias partes do mundo, estaremos em rede num projeto que pode inspirar outros, com seu apelo de solidariedade, justiça, liberdade. A música nunca é apenas música. A música – essa música – pode ser mais até do que ela mesma infinitamente alcança, no futuro do passado de cada um de nós.

Arthur Nestrovski é o Diretor Artístico da Osesp.